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Toca a campainha.
Abre a porta um homem de shorts, uma camiseta com alguns rasgos nos ombros, barba por fazer, olhar fixo, cabeça meio caída para um lado, aparentando uns 35 anos.
- Boa tarde!
- Que você quer?
- Boa tarde, eu sou do Censo e estamos fazendo o levantamento deste ano. Minha área é esta. Posso lhe fazer umas perguntas?
- Entre.
- É rápido, não há necessidade de me sentar, obrigada.
- Entre. Não posso ficar de pé muito tempo. Varizes (apontando para sua perna aparentemente sã).
- Entendo. Com licença, então.
Ela senta-se num sofá de dois lugares, rasgo no centro dos dois assentos e no encosto, um tecido jogado para cobrir outros, de alguma possível cortina estampada.
Ele entra logo atrás dela e fecha a porta com a chave do bolso e volta a guardá-la.
- Segurança moça. Isso aqui é terra de bandido.
- É sempre bom tomarmos cuidados sim (num sorriso misto de compreensão e preocupação).
Ele acomodou-se no outro assento, ao lado dela, com um dos braços no braço do sofá e outro sobre o encosto, quase roçando-lhe os cabelos. Pernas desleixadamente abertas.
- Bom, como eu disse ao senhor….
- Pode me chamar de José.
- Bom, seu José…
- José só, eu gosto mais. Me sinto velho desse jeito.
- Certo. José, como te disse, eu estou fazendo levantamento e…
- Sei, sei, sei o que o Censo faz. Você quer perguntar o que? pode ir perguntando.
- Tá.
Suas mãos estavam suadas e o lápis mal parava entre os dedos. Tremiam nitidamente e de sua testa já brotavam algumas gotas. Sem olhar diretamente aos olhos do homem, continuou.
- Primeira coisa é saber quantas pessoas moram aqui. O senhor…
- Você!
- Isso. Você, sua esposa, filhos?
- Moro só. Pode por ai: um.
- Ok. Um.
- Casado, solteiro, divorciado…
- Se moro sozinho, sou solteiro né.
- Solteiro.
- Filhos…não tem, não é José.
- Tenho. Três. Fiz com a vizinha. Mas não casei. Nem vou casar.
- Três.
A moça estava pensando seriamente em dar por encerrada a entrevista, mas lembrou-se que estava a serviço. Tinha que levar isso até o fim, embora seu coração parecesse querer sair pela boca. Mesmo porque não tinha como sair sem que ele permitisse.
- Que mais… ah.. .idade do…sua.
- 35. Pode por assim.
- 35. Certo.
- É… essa casa é sua, José?
- Você está nervosa, tá tremendo. Quer beber alguma coisa pra relaxar? tem vodca, pinga, cerveja se achar que é muito forte.
- Obrigado, eu não posso beber em serviço. Sua casa?
- Você não me disse seu nome. Eu disse o meu já.
- Ah, desculpe. Maria Cristina. Prazer.
- O prazer é meu. Não quer beber mesmo? ninguém vai ficar sabendo. (fazendo gesto apontando para os fundos).
- É , eu sei, mas eu fico meio mal, você entende. ( num sorriso forçado e nervoso).
- Então José, me conte, essa casa é sua?
- Não. É dos meus pais. Morreram.
- Morreram. É… casa dos pais….pronto.
- Você trabalha, José?
- Claro né. Se fosse vagabundo, morria de fome. (gargalhada mostrando ausência de alguns dentes). Ela tentou uma gargalhada, mas sem convencer ninguém.
- Está certo, José. Faz o que então? vou anotar aqui neste campo. (respirando fundo).
- Eu vendo sucata.
- Sucata. Autônomo…não.. que eu poria…
Maria Cristina começou a pensar. Tinha que sair dali. O homem estava ficando impaciente, começava a por as mãos entre as pernas, com intenção de provocá-la, sentiu isso. Teria que ter um tempo para ver alguma saída, pois a porta estava trancada e ele guardara a chave no bolso.
Bom, posso ver os cômodos da casa? preciso anotar aqui quantos tem…entendeu?
Ele levantou-se, virou-lhe as costas e fez um gesto para acompanhá-lo.
- Venha. Vamos lá para os fundos, você vai contando aí.
A moça levantou-se em seguida, aproveitando que ele estava de costas e foi examinando janelas, portas… mas só havia uma janela e não daria para passar nem um gato. Somente aquela da sala. Porta, só tinha visto a da entrada. Seguindo num corredor escuro, sem janelas, chegou a um quarto.
- Anota ai. Um quarto.
- Um…só tem um quarto?
- Só. Moro sozinho. Olha aí, minha cama. E ali, um sei lá o que. Móvel.
- Ok. Um quarto. Cozinha?
- Lá no fundo. Mas não é cozinha. É um lugar ai, onde eu fico parado. Não sei como chama isso. Tem uma cadeira ali, olha lá… e a outra …tirei daqui. E essa mesa no meio. Nem mesa é, é um caixote dos bom que eu achei. E o fogão de lenha ali, que eu esquento a marmita que a vizinha me faz. O que é aqui?
- José, acho que é um …pode ser uma cozinha mesmo. Uma cozinha, vou marcar.
- Tá certo. Agora aqui é banheiro. Uso como banheiro, tem só uma privada. Nem pia nem chuveiro. Uso da vizinha ainda. (desferiu um sorriso meio jocoso).
- Muito bem. Um banheiro. Marquei então um quarto, um banheiro, a cozinha e uma sala lá na entrada… Tem outra entrada para a casa? quintal?
- Não moça. Às vezes saio pela janela aqui, quando uns caras aparecem que eu não me entendo com eles, tá sabendo? mas porta é só aquela mesmo.
- Não tem quintal então.
- Tem o quintal do vizinho, por onde eu saio aqui pela janela.
- Tá…mas não é seu terreno.
- Nada é meu aqui. Dos meus pais, te disse.
- Ok…bom… cozinha. Já marquei.
- Então está certo, José, vamos voltar lá para a sala, que preciso completar a sua ficha.
Maria Cristina seguia para a sala, cujas pernas mal a mantinham em pé. A passos largos, tentava chegar o mais rápido ao lugar mais claro da casa. Ou menos escuro. Atrás vinha o homem, quase encostando em sua roupa, escutando claramente sua respiração.
Sentou-se novamente no sofá, empunhou a prancheta e …precisava de um tempo para verificar aquela janela da sala. Era de correr, mas tinha um arame amarrado. Teria que soltá-lo e pular para aonde exatamente, não tinha a menor idéia. O homem sentou-se ao lado dela, agora com uma das coxas encostando em sua calça. Maria Cristina fingiu incomodar-se com o sofá, olhou como se algo a tivesse beliscado e sentou-se novamente, afastando-se das pernas do José, que já havia deixado abertas ainda mais.
- Então, José, agora vou precisar do seu documento. Preciso anotar aqui o CIC e o RG. O seu…você tem ai?
- Tá lá nos fundos. Em algum lugar. Não uso esse tipo de coisa. Sei de cabeça os número. Anota aí…é… 12…
- Desculpa José, mas preciso anotar várias coisas do documento. Por favor, vá buscá-los que eu anoto num instante ( abrindo um largo sorriso, na tentativa de dar-lhe confiança e deixá-la a sós por algum tempo).
- Vou buscar. Me espere aí , ok?
- Ok, estou esperando.
José caminhou um pouco e parou. Olhou para trás, viu-a com aquele mesmo sorriso e seguiu para o fundo da casa.
Não sabia se já tentaria abrir a janela. De repente, ele poderia estar parado ali na curva, aguardando algum movimento seu. Mas ouviu o barulho de caixas, madeira e percebeu que ele realmente tinha ido até lá. Levantou-se rapidamente, colocou a prancheta com o maior cuidado para não fazer barulho e começou a desatar o rolo de arame que unia o fecho da janela. No desespero, acabou ferindo um dos dedos, com vários pingos de sangue já no chão, continuou, agora, sem medo de mais nada. Era sua chance única. Soltou o arame. Agora teria que correr as janelas nos trilhos. Tentou uma e fez um barulho horrível de ferrugem. José já estava na sala, olhando-a, com um leve sorriso.
- Já achou, seu José? estava demorando, vim ver se tinha alguma casa aqui do lado para visitar logo após a sua….estou vendo… é da sua vizinha? ( voltando a sentar-se em seu lugar, derrubando o lápis e em seguida a calculadora que estava sobre a prancheta).
- Calma moça, vai quebrar tudo aí.
Sua testa parecia uma cachoeira. Enxugou-a com as costas das duas mãos, olhando atentamente agora para os olhos do homem, tentando perceber se havia desconfiado de sua intenção.
- O dedo. Você cortou o dedo. Olha o sangue aí.
- Não é nada, não é nada. Foi o arame, descuido meu. (apertando o dedo contra a calça para estancar o sangue).
- Quer um pedaço de pano para enrolar isso ai?
- Obrigado, José, já parou, olha aí.
- Você tá muito nervosa. Tá com medo? primeira vez sua é? (com um sorriso cínico).
- Estou calma. É que faz muito calor aqui dentro, as janelas estão todas fechadas.
- Por isso que eu fico assim de short…ou de cueca as vezes. Moro sozinho.
Ele levantou-se foi até a janela, viu os pingos no chão, disfarçou e voltou a colocar o arame na janela.
- Não posso descuidar. Essa turma anda armada. Se me vê aqui, já era.
- Tudo bem. Tudo bem… o documento, o…como chama…o RG.. o senhor trouxe?
- Trouxe a caixa que tem as coisas mais importantes minhas. Tá tudo aqui dentro.
- Certo. Então o ..você me dê o RG primeiro.
José abriu a caixa e com muita tranqüilidade botou a mão dentro, retirando um revólver, apontando com um leve sorriso, para o rosto da moça.
- Não brinca com isso José…por favor! pode estar carregada e disparar acidentalmente. ( com uma voz de choro indisfarçável).
- Não dispara não moça. Só se eu botar o dedo aqui, olha, no gatilho, como fiz agora. Agora você vem comigo lá pro fundo, que a gente vai conversar um pouco, tá bem? depois você vai embora. Prometo.
No dia seguinte, a notícia corre, estampada na primeira página do jornal da cidade:
Funcionária do Censo, Maria Cristina, 23 anos, divorciada, dois filhos, desaparecida no bairro do Treme-terra. Iniciadas as buscas hoje de manhã.
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