Destinos

25 Abril 2007

 

 

Chovia demais. Pela janela da sala, Eleonora via as árvores de frente de sua casa como se quisessem voar céu afora. Os fios dos postes bailavam como crianças a pular corda. Tudo estava fechado. O tempo já se mostrara pouco amistoso, meia hora atrás.tricotando21.jpg
Enquanto isso, fazia o casaquinho de tricô. O casaquinho azul. Seria menino. Estava com 7 meses, todos os exames feitos, tudo ok. Seu marido estava viajando, representante de uma indústria na capital. Pouco parava em casa. Mas tinha o período de férias dele, que seria no próximo mês. Poderia acompanhar um pouco a sua gestação, ajudá-la em algumas coisas da casa. Sua barriga estava grande, tinha dificuldades para abaixar-se e tudo o que fosse relacionado a movimentos. Felizmente não tivera aquelas confusões de gestantes, como desejos e vômitos. Tudo estava indo muito bem, seu médico acompanhava periodicamente seu estado. Enquanto tricotava, imaginava o futuro de seu bebê. Advogado? Médico? Engenheiro? Bobagem. Nem sequer saíra de seu ventre e já estava querendo prever-lhe o futuro. Nisso toca o telefone. Eleonora, com toda dificuldade do mundo, conseguiu erguer-se do sofá que estava por demais macio, afundando muito ao sentar-se. Largou seu casaquinho no sofá e foi lentamente em direção ao telefone, resmungando enquanto andava, acreditando ser um daqueles telemarketings que oferecem bolsas de estudo grátis, pagando apenas o material didático. O telefone também estava ruim, muito chiado, pois a tempestade estava forte, raios, trovões, vento excessivo, provavelmente dando curto em toda fiação.
- Alô!
- Alôôô!
- Por favor, a dona Cida. Pode chamá-la?
- aqui não tem dona Cida não, moça. Só eu e meu marido.
- Desculpe o incômodo, devo ter discado errado.
Desligou. Eleonora põe o fone no lugar, massageia sua barriga imensa, sentia o bebê mexendo-se bastante. Nesse momento, um estrondo na rua, como se o mundo estivesse a partir-se ao meio. Deu um passo em direção à sala, quando o teto lá à frente veio abaixo, destroçado por uma das árvores centenárias existentes junto à sua calçada. Seu tronco era enorme, chegando próximo a um metro de diâmetro, vindo a cobrir todo o sofá e móveis que havia por perto. Aterrorizada, puxou a primeira cadeira que havia por perto, respirando com dificuldade, tentando refazer-se do susto. Seu sofá não existia mais. Sua sala estava definitivamente perdida no meio de todo pó que pairava no ar. Nesse momento já entrava em sua casa, o vizinho da frente, conhecido da família, temendo o pior. Encontrou-a estática em sua cadeirinha, parou, olhou-a e soltou um sorriso de alívio por encontrá-la bem. Sem conversarem, sentou-se em outra cadeira junto a ela e ficaram a olhar aquele amontoado de tijolos, vigas. E ela a tentar entender: será que a tal moça do telefonema tem noção do destino que deu à sua vida e de seu filho?