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Chovia demais. Pela janela da sala, Eleonora via as árvores de frente de sua casa como se quisessem voar céu afora. Os fios dos postes bailavam como crianças a pular corda. Tudo estava fechado. O tempo já se mostrara pouco amistoso, meia hora atrás.
Enquanto isso, fazia o casaquinho de tricô. O casaquinho azul. Seria menino. Estava com 7 meses, todos os exames feitos, tudo ok. Seu marido estava viajando, representante de uma indústria na capital. Pouco parava em casa. Mas tinha o período de férias dele, que seria no próximo mês. Poderia acompanhar um pouco a sua gestação, ajudá-la em algumas coisas da casa. Sua barriga estava grande, tinha dificuldades para abaixar-se e tudo o que fosse relacionado a movimentos. Felizmente não tivera aquelas confusões de gestantes, como desejos e vômitos. Tudo estava indo muito bem, seu médico acompanhava periodicamente seu estado. Enquanto tricotava, imaginava o futuro de seu bebê. Advogado? Médico? Engenheiro? Bobagem. Nem sequer saíra de seu ventre e já estava querendo prever-lhe o futuro. Nisso toca o telefone. Eleonora, com toda dificuldade do mundo, conseguiu erguer-se do sofá que estava por demais macio, afundando muito ao sentar-se. Largou seu casaquinho no sofá e foi lentamente em direção ao telefone, resmungando enquanto andava, acreditando ser um daqueles telemarketings que oferecem bolsas de estudo grátis, pagando apenas o material didático. O telefone também estava ruim, muito chiado, pois a tempestade estava forte, raios, trovões, vento excessivo, provavelmente dando curto em toda fiação.
- Alô!
- Alôôô!
- Por favor, a dona Cida. Pode chamá-la?
- aqui não tem dona Cida não, moça. Só eu e meu marido.
- Desculpe o incômodo, devo ter discado errado.
Desligou. Eleonora põe o fone no lugar, massageia sua barriga imensa, sentia o bebê mexendo-se bastante. Nesse momento, um estrondo na rua, como se o mundo estivesse a partir-se ao meio. Deu um passo em direção à sala, quando o teto lá à frente veio abaixo, destroçado por uma das árvores centenárias existentes junto à sua calçada. Seu tronco era enorme, chegando próximo a um metro de diâmetro, vindo a cobrir todo o sofá e móveis que havia por perto. Aterrorizada, puxou a primeira cadeira que havia por perto, respirando com dificuldade, tentando refazer-se do susto. Seu sofá não existia mais. Sua sala estava definitivamente perdida no meio de todo pó que pairava no ar. Nesse momento já entrava em sua casa, o vizinho da frente, conhecido da família, temendo o pior. Encontrou-a estática em sua cadeirinha, parou, olhou-a e soltou um sorriso de alívio por encontrá-la bem. Sem conversarem, sentou-se em outra cadeira junto a ela e ficaram a olhar aquele amontoado de tijolos, vigas. E ela a tentar entender: será que a tal moça do telefonema tem noção do destino que deu à sua vida e de seu filho?
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