O Mágico

4 Maio 2007

Henry era um mágico de grande prestígio. Fazia todo tipo de coisas, de deixar a platéia de boca aberta.
- Como ele faz isso! Exclamavam os que o assistiam.
Tinha em seus espetáculos, efeitos incríveis. Pessoas que sumiam ao serem envolvidas por lençóis coloridos. Pássaros que saiam de sua mão, sem saberem de que forma. Era realmente um mágico de primeira qualidade.
Sua assistente, Angel, uma moça nova, atuava nas apresentações onde Henry atirava, de olhos vendados, aquelas facas pontiagudas em sua direção, enquanto ela girava amarrada a uma gigantesca roda de madeira, com tochas de fogo, para tornar a coisa mais impressionante, mesmo que as labaredas não interferissem em coisa alguma.
Mas certo dia, Angel sumiu. Um dia antes de uma apresentação marcada em certo clube de uma cidade de interior, tudo já acertado, cachês, músicos, técnicos de iluminação e auxiliares em geral, Henry recebeu uma carta de Angel, simplesmente dizendo que havia viajado para se casar e não voltaria a atuar, por exigência de seu noivo. Não falara pessoalmente, conforme constou na carta, de medo de seu mestre. Henry era muito explosivo quando algo saia errado. Imaginou como ficaria quando soubesse que estaria sem sua assistente, a poucos dias de seu show. Não havia substitutas, para alguma eventualidade.
Sendo assim, o mágico fez alguns contatos urgentes com amigos seus da classe e acabou recebendo o telefone de uma assistente que teria trabalhado para um mágico por algum tempo e que teve que se retirar dos palcos pelos mesmos motivos. Mas ela estava num processo de separação e resolveu voltar à atividade. Por esse motivo, passaram-lhe o tal número.
Imediatamente, Henry fez a ligação, encontrando-a em casa. Após explicar o acontecido, Amanda se dispôs a viajar urgentemente para a cidade onde Henry estaria se apresentando. Quanto aos números, conhecia-os quase todos. Mesmo porque não existe mistério em ficar amarrada a uma roda giratória. Bastava ter sangue frio e crer em seu mestre. Nem muito menos quando o que fazia era apenas servir os materiais necessários ao mágico.
Outra apresentação que causava arrepios e apupos da platéia, era a mágica do caixão mágico, onde a moça entrava, a tampa era fechada e, uma a uma, Henry espetava imensas espadas cintilantes nos orifícios de cima, transpassando-as até que aparecessem do lado de baixo do caixão, sustentada por dois cavaletes. Por algum motivo fantástico, nenhuma gota de sangue escorria do caixão. No momento de enterrar a espada, o mágico fazia uma encenação, demorava alguns segundos, como que se concentrasse profundamente e, com violência, fazia penetrar a lâmina, arrancando gritos dos apreensivos espectadores. Ma nem um gemido se ouvia de lá de dentro. Tudo era realmente mágico.
Outra mágica interessante e essa, Amanda ainda não tinha executado com ninguém, era a de ser amarrada, algemada e enfaixada dentro de um grande saco, vestida toda de azul, cheio de lantejoulas que pareciam verdadeiros faróis. Ao sair misteriosamente de dentro, em pouco mais de um minuto, estava vestida toda de vermelho. Realmente era um número espantoso.
De manhã, Amanda chegou à rodoviária, indo até lá o mágico, para buscá-la. No caminho, veio tratando do assunto de cachê, além de explicar como funcionavam alguns pequenos truques que ela ainda não conhecia. Poucos mesmo, pois Amanda era uma assistente muito experiente.
Henry estava almoçando com a nova assistente num modesto restaurante, quando toca o celular da moça. Ficou paralisada, ouvindo tudo o que lhe era falado. Uns dez minutos se seguiram sem que Amanda falasse um “a”. Ao desligar, olhou para o mágico. Estava bem pálida. Agarrou um copo de água e tomou-a com certa dificuldade.
- O que foi, Amanda? problemas?
- Meu marido. Estamos em fase de separação e ele não aceita de forma alguma. Mas entrei com pedido de divórcio há uns meses e semana que vem tudo se resolverá. Mas ele não está aceitando, disse que se eu não retirar hoje mesmo o pedido, ele vai cometer uma loucura. Estou com medo, Henry. Ele é maluco, já fez coisas horríveis por ciúmes. Sempre trabalhei com mágicos, obviamente me trocava na mesma cabine que eles. Ele não se conformava, queria que eu abandonasse esse tipo de trabalho, mas é tudo que sei fazer. Agora me faz ameaças de morte.
- Ele sabe onde você está?
- Falei. Sou uma idiota mesmo. Ele veio calmamente ontem à minha casa e conversamos sobre a separação, ele parecia bem. Aí contei que teria de viajar, ele perguntou para onde e eu, boba, contei. Tenho medo que ele apareça. Depois que contei que estaria novamente com um mágico, ele se revoltou, chutou uma cadeira, atirando-a contra a parede. É um monstro.
- Vamos então tomar algum cuidado. Pena que esta cidade é pequena, não vai ser difícil dele descobrir onde vamos nos apresentar, está estampado com faixas pela cidade toda. Vamos ficar atentos. Aqui mal tem policiais na delegacia, quanto mais para ficar te protegendo.
- Bem, deixe assim. Não podemos deixar de nos apresentar, Henry. Me conte tudo que tenho que fazer, repita aquele número do saco, que não entendi bem algumas coisas.
Chegada a hora do show, à noite do dia seguinte, as cortinas se abriram, a música fantástica percorreu todo o salão do clube, luzes, spots, canhões, iluminavam todo o local. O clube não era muito grande por se tratar de uma cidade de pouco mais de cinquenta mil habitantes. Mas estava lotado. Os poucos lugares vazios, aos poucos iam sendo ocupados, ainda pessoas chegando pelos corredores. Tudo pronto, Henry e Amanda muito bem vestidos, muitas luzes em suas vestes artísticamente elaboradas, o povo freneticamente os aplaudiu, sabendo da grande capacidade e conceito do mestre. Alguns estranharam a presença de Amanda, pois conheciam pelas revistas, a antiga assistente. Mas isso era o de menor importância. Henry estava ali ! .omagico.jpg
Após os cumprimentos de praxe, começaram imediatamente a executar números menores, um tipo de aquecimento, até chegarem aos mais sofisticados, de grande impacto emocional.
Uma hora de show, vários números se seguiram e chegara o momento de um dos grandes. Primeiramente o do caixão e para terminar o show, o do lançamento das facas e o do saco. Era sempre assim.
Amanda se posicionou frente ao caixão, uma pequena escadinha foi colocada ao lado, para que pudesse subir e deitar-se lá dentro. A grande caixa era mesmo justa e por felicidade de Henry, correspondia ao tamanho das duas assistentes. Eram muito parecidas fisicamente. Deitada, o mágico fecha a tampa e lá estava Amanda para mais um número de prender o fôlego de quem assistia. Ao lado do caixão, um suporte contendo as 10 espadas. Longas, com quase um metro de comprimento. Brilhavam, aparentemente feitas de puro aço e afiadas como as facas de um açougueiro. Henry posicionou-se aos pés do caixão onde seria enterrada a primeira delas. Aos poucos iria subindo até a área da cabeça da assistente. Posicionado, com a ponta da espada encostada no primeiro orifício, fez o movimento enérgico para baixo, um som estridente lá do fundo elaborado pelo sonoplasta, fez o público gritar um “oh!” em côro harmonioso. Palmas. Outra espada, um pouco mais para cima, nova espetada, outros arrepios. Agora no meio do caixão, a altura do tórax, uma outra espada apontando para o orifício, novo movimento enérgico para baixo, um som mais estridente do fundo, para causar maior espanto, a platéia se levanta, grita. Repentinamente um som abafadado dentro do caixão, como se a assistente batesse a cabeça na tampa. Henry estranhou, pois a espada entrara com mais dificuldade, talvez tivesse acontecido algo errado, Amanda se machucado lá dentro com alguma coisa. Olhou embaixo e aterrorizado, viu a lâmina coberta de sangue, uma pequena poça se formara sob o caixão. Muitas pessoas próximas ao palco desmaiaram, outras passando mal, com falta de ar, abanadas pelas que estavam ao lado e que ainda conseguiam respirar. Bocas abertas, nada entendendo daquele cena aterrorizante. Alguns da platéia sorriram, pois entenderam que era um efeito de terror acrescentado, para dar ao número, um impacto fulminante. Mas não era. Realmente algo havia saído errado, Henry abriu atabalhoadamente a tampa e lá estava sua linda assistente, com os olhos abertos, sem piscar. Estava morta. A espada havia lhe perfurado o estômago e, como a madeira do caixão era extremamente fina embaixo, a espada não teve dificuldades em atravessá-lo, também. Os auxiliares do mestre correram a ajudá-lo vendo-o estático, pálido, com as pernas se dobrando. Um minuto depois, Henry estava no chão, abanado pelos operadores do palco, mais alguns da platéia que lá subiram com a finalidade de constatarem a tragédia. No dia seguinte a polícia apresentou os dados do laudo, informando que uma das espadas havia sido burlada e não funcionou como normalmente deveria. O mandado de busca ao marido da assistente havia sido expedido.

 
 

3 Respostas para “O Mágico”

  1. Bela disse

    Nossa, que horror!

  2. ana p. disse

    Que meeeeeeeeeeeeeeeeeedo dessa história!!! Mas que maridinho, hein??? Mto bem elaborado, gostei mesmo!

  3. Izaura disse

    humm, ainda bem que vou fugir com o padeiro ou pipoqueiro, rsrs.
    Ótimo conto…beijos.

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