O dançarino

18 Janeiro 2008


Eurico era o nome dele.
Síndico de um prédio de pouco movimento, porteiro também, nada fazia a não ser ficar olhando as pessoas passando pela rua. O rádio sempre ligado, ouvindo músicas dançantes e enquanto isso, seus pés acompanhavam o ritmo. Balançava-os para os lados, pareciam que queriam dançar sozinhos. Mas era mais ou menos isso. Eurico tinha o desejo de dançar, dançar em um salão, dançar o que fosse. Um bolero, uma valsa, mais exatamente esses dois. Estava lendo um livro que ensinava dança de salão. Como não tinha tempo para ir a um curso, nem dinheiro sobrando para esse tipo de despesa, resolveu emprestar um livro da biblioteca e toda noite ensaiava em seu quarto de pensão, aqueles passos desenhados nas páginas. Ligava o rádio, uma estação que já conhecia bem, só tocava esse tipo de música e, abraçando uma almofada contra o peito como se fosse uma dama, ficava rodando no estreito espaço central de seu quarto. Já estava nesse ensaio fazia dois meses. Ainda não havia adquirido confiança suficiente para enfrentar um salão. Além de tudo era tímido, apesar de não parecer. Tinha também receio de vacilar e acabar pisando nos pés de alguma mulher que convidasse pela primeira vez. Então ensaiava e ensaiava. Para fixar bem a hora dos passos, falava em voz alta: um… dois…um dois três….um… dois…um dois três. A cada dia ficava mais firme nos movimentos. Até que numa quarta-feira resolveu que era chegada a hora de fazer sua primeira aparição em um salão. Toda sexta-feira havia baile em um clube um tanto afastado do centro da cidade. Como não tinha costume de ir a festas ou outro tipo de reunião a não ser o do condomínio, não tinha também terno algum para esse evento. No dia seguinte foi até uma dessas lojas de aluguel de roupas finas, e experimentou vários ternos. Foi difícil encontrar um, pois seu corpo não era lá muito convencional.
dancarino02a.jpg Eurico tinha 45 anos, era baixo, atarracado, quase não possuía pescoço, os braços grossos e as pernas finas. Depois de vários experimentos, encontrou um que servia razoavelmente. Como não ficou nenhuma maravilha, o dono da loja resolveu fazer um belo desconto para que ele levasse aquele mesmo. Chegando em seu quarto, colocou-o no cabide, dentro de seu pequeno guarda-roupa. Estava tudo ok. No dia seguinte à noite estaria se dirigindo ao clube devidamente vestido. À noite mal conseguiu dormir. Eurico sonhava com mulheres sentadas, e ele em pé do outro lado do salão, esforçando-se para encontrar uma com quem ele se sentisse à vontade para dançar. Depois de se levantar várias vezes e tomar um leite quente, um chá, acabou pegando no sono. Seu dia de trabalho parecia se arrastar. Estava louco de desejo de entrar naquele salão vestindo seu terno verde com listas em marrom. Já havia lustrado seu sapato marrom, que combinaria com as listas e a gravata num verde mais escuro que o terno, contrastaria bem com a camisa num tom alaranjado, caindo quase para o rosa, a única que possuía, com mangas compridas. Enquanto o tempo não passava como queria, ia acompanhando seu radinho, os pés dançando sozinhos enquanto marcava o tempo em voz baixa: um…dois….um dois três…
Chegou ao fim, seu expediente. Seis da tarde, passou as chaves para o seu substituto que entrou a partir desse horário. A caminho da pensão, dirigindo seu pequeno carro, ia movimentando os pés, nessa hora com um pouco mais de cuidado para não fazer nenhuma besteira no trânsito. Chegando lá, foi direto ao banheiro, tomar seu banho, fazer a barba, escovar os dentes, aparar seu encorpado bigode. Aparava também as sobrancelhas e pêlos que cresciam em suas orelhas. Estava tudo bem. Enquanto tomava sua sopa, o rádio tocava um desses boleros bem tradicionais, e entre uma colherada e outra, marcava o compasso: um…dois….um dois três.
Uma hora para o baile. Já estava devidamente vestido, penteado e perfumado. Pegou seu carro em frente à pensão e foi, bastante animado e encorajado. Havia treinado demais. Não tinha o que errar. Afinal, sempre tocam esses boleros famosos e ele já conhecia de cor até mesmo a letra, em castelhano.
Estacionou o carro no pátio do clube e logo localizou a fila que se formava para adquirir o ingresso. Colocou-se ao fim da fila, que já contava com uns 20 casais. Algumas mulheres estavam sós. Dessas, Eurico não tirava os olhos. Queria prever com qual delas tentaria a sorte. Uma logo à frente não parava de dançar, mesmo sem música. Parecia ter muita prática. Precisava localizar uma que fosse como ele, pouca experiência. Ai não perceberia que ele era um iniciante. Ouviu uns passos, olhou para trás e chegavam duas mulheres juntas e um homem. Ele estaria com qual das duas? passavam uns segundos e Eurico olhava para trás, discretamente e as duas o fitavam e sorriam. Sentiu que não seria difícil dançar com uma delas. Novo olhar e nova troca de sorrisos. Eurico apertou o nó da gravata, respirou fundo e deu mais uns passos. Passada a roleta, subiram em direção ao salão. Como não havia reservado mesa, foi se encostando numa parede à direita do salão, onde outros também se acomodavam, em pé, aguardando o início do baile. Percebeu que as duas mulheres ocuparam uma mesa, e aquele homem estava também sentado, entre as duas. Impaciente, suas mãos começaram a suar. Não via muitas mulheres disponíveis. Além daquelas duas, poucas estavam sem parceiro e se encontravam já de pé, à beira do salão, ensaiando passos. Finalmente a apresentação da banda que acabara de entrar. O vocalista se apresentou, e em pouco tempo iniciaram o baile. Tocavam uma valsa. Os casais mais idosos já se levantavam para aproveitar esse ritmo mais lento. Eurico queria um bolero. Quinze minutos de valsas e o cantor anunciou que começariam a tocar os boleros logo após um breve intervalo. Eurico começou a olhar mais nervosamente para as mulheres disponíveis. Bem no fundo, junto à parede esquerda, reparou em uma, sentada e só. Não parecia esperar ninguém. Voltando os músicos, iniciaram o primeiro bolero. Eurico respirou mais uma vez com convicção e atravessou o salão em direção à mulher solitária.

- boa noite!
- boa noite, correspondeu ela.
- está com alguém?
- estou com umas amigas, mas já foram para o salão. Arranjaram com quem dançar.
- e será que eu posso te convidar também?
- bem, eu não sei dançar direito, por isso não costumo aceitar.
- pois eu sei um pouco só, mas acho que podemos dançar alguns boleros.
- então vamos, sorriu meio que por gentileza.
Deram as mãos e Eurico levou-a para o centro do salão e imediatamente postou-se como um dançarino experiente, mão com mão e a outra na cintura da senhora e começaram a dar os primeiros passos, ambos olhando para o chão para terem certeza que não se pisariam.
-um dois..um dois três…
- Seu nome qual é?
- Eurico, um… dois…um dois três…
- O que você está fazendo, contando passos?
- Um dois…hein? opa, desculpe, pulei um passo.. três…não….vamos começar de novo..um…
- Você só dança assim, contando os passos …em voz alta?
- conte comigo, senão me perco. Hoje é meu primeiro dia,… dois três…
- mas eu não sei contar assim…e está todo mundo olhando.. ai que vergonha…
- Vergonha de que? você está indo bem… um dois… um dois três…
- Vou parar! estamos sendo observados! aquele casal está rindo de nós! olhe!!!
- Não se preocupe, é… como disse que é o seu nome mesmo? …um..não ..dois três…me perdi de novo.
- Eu não disse!. Olha, preciso ir embora, valeu a tentativa.
- Fica mais uma música, esta já está…é…..três, não, dois….vai, preste atenção comigo. É fácil. Um dois…
- A senhora, com alguma dificuldade conseguiu se livrar da mão de Eurico, e afastou a outra de sua cintura.
- Olhe Eurico, outro dia ok? eu preciso treinar mais e também está muito tarde. Adeus! – e virou-se rapidamente para sua mesa, com passos rápidos, catando seus pertences e sem olhar para trás, pegou a saída do salão, nitidamente sem coragem de encarar quem quer que fosse.
Eurico, ainda no centro do salão, com olhar perdido pelos cantos, ficou sem saber se procurava alguma outra sem parceiro ou se pedia alguma coisa para beber. A música acabou e o vocalista anunciou uma pausa de 20 minutos. Eurico resolveu voltar para casa. Estava aborrecido. Da próxima vez procuraria alguém mais experiente.